Com curadoria de Rogério Ricciluca Matiello Félix, a mostra celebra o centenário do Instituto Borges de Artes e Ofícios e oferece experiência sensorial com quase 200 itens históricos, entre ferramentas, móveis e objetos produzidos pelos alunos e mestres da instituição.
Por Mariane Belasco
O Museu Republicano de Itu abre as portas, neste sábado, dia 30 de agosto, para a inauguração da exposição “Aprender com ferramentas: histórias pelas materialidades do Instituto Borges de Artes e Ofícios”, uma iniciativa inédita que celebra o centenário do Instituto Borges de Artes e Ofícios (IBAO). Com curadoria de Rogério Ricciluca Matiello Félix e curadoria institucional de Francisco de Carvalho Dias de Andrade, a mostra reúne uma seleção de quase 60 itens – entre ferramentas e outras peças – doados pelo IBAO ao Museu Paulista em 1991, oferecendo ao público uma experiência sensorial e educativa sobre o universo do trabalho, a cultura material e a história da formação profissional no Brasil.
Segundo Félix, a concepção da exposição surgiu a partir de um convite da então supervisora técnica do Museu Republicano, a professora Maria Aparecida de Menezes Borrego, para organizar uma mostra sobre o IBAO. “A ideia central foi oferecer uma visão ampla e multifacetada sobre cada item, valorizando a história das pessoas que, muitas vezes, são esquecidas nas narrativas hegemônicas, mas cujas marcas permanecem nas ferramentas e nos objetos que produziram e utilizaram”, explica o curador. A partir dessa perspectiva, a exposição integra peças do acervo do Museu Paulista e objetos produzidos pelo próprio IBAO, incluindo móveis e utensílios de madeira que ilustram o impacto das ferramentas na criação de produtos e na formação técnica dos alunos.
Curadoria dos itens
A seleção dos itens para a mostra foi realizada com critérios variados. A intenção de Félix foi apresentar peças pouco exploradas em outros contextos. “Escolhemos elementos que permitam ao público observar detalhes do processo de produção, as marcas deixadas pelo uso das ferramentas e a diversidade de funções de cada objeto”, afirma. Entre os itens em destaque estão ferragens, ferros de plainas, máquinas-ferramentas, máquinas elétricas e peças com desgaste, além de produtos comparativos provenientes da coleção do Museu Paulista, que ajudam a ampliar a compreensão histórica das técnicas e práticas do IBAO.
Um dos grandes diferenciais da exposição é a interação tátil. Félix destaca que o público poderá manusear algumas ferramentas novas, similares à algumas expostas e experimentar sensações relacionadas ao trabalho manual. “As mesas táteis permitem que os visitantes percebam a multiplicidade de usos das ferramentas e compreendam o saber-fazer transmitido pelos mestres de ofícios, estimulando todos os sentidos e promovendo uma experiência inclusiva”, comenta o curador. Essa abordagem também dialoga com conceitos da sociomuseologia e da acessibilidade, garantindo que pessoas com deficiência possam explorar o conteúdo de forma efetiva e enriquecedora.
A exposição está organizada em três eixos principais. O primeiro aborda o IBAO como espaço de aprendizado em oficinas, evidenciando a história da instituição e sua importância para a formação técnica em Itu e no Brasil. O segundo eixo utiliza as ferramentas como fontes para pesquisadores, permitindo leituras que revelam contextos históricos mais amplos e práticas de trabalho ao longo do tempo. O terceiro eixo envolve o público na experiência prática e reflexiva, incentivando a exploração crítica e criativa dos objetos expostos. “Todos os eixos dialogam a partir da materialidade dos acervos, mostrando como um simples objeto pode abrir múltiplas frentes de raciocínio e estimular estudos profundos sobre história, artes e tecnologia”, reforça Félix.
O IBAO, fundado em 1924 a partir de uma doação de Joaquim Bernardo Borges, comerciante português que viveu em Itu entre 1850 e 1877, surgiu com o propósito de oferecer formação profissional gratuita para jovens de baixa renda. O Instituto destacou-se em áreas como marcenaria, carpintaria, mecânica, entalhe, fundição, desenho, corte e costura, e contribuiu significativamente para a industrialização local e para a formação de profissionais qualificados em todo o Brasil. Félix salienta que a relevância do IBAO vai além de sua contribuição técnica: “O Instituto impactou a cidade de Itu, influenciou a trajetória do ensino técnico no país e deixou um legado material e social que ainda se reflete no presente, seja nas construções, móveis, memórias de ex-alunos ou na continuidade da instituição em atividades educacionais e filantrópicas”, comenta.
Participação da comunidade
Durante a pesquisa para a curadoria, Félix relata ter se surpreendido com a receptividade da comunidade e das instituições envolvidas. “Foi incrível ver como as pessoas se mobilizaram para apoiar a exposição, seja cedendo peças, como móveis produzidos no IBAO, ou oferecendo informações valiosas. A visita ao Instituto, acompanhada de especialistas como o professor Jonas Soares e o museólogo Bruno Furquim, revelou a preservação excepcional de máquinas e ferramentas, verdadeiras pérolas da história industrial brasileira”, conta o curador. Além disso, a diversidade das origens dos materiais das ferramentas, como aços importados da Suécia, proporcionou reflexões que Félix pretende aprofundar em seu doutorado em História Social na USP.
O desafio da montagem da exposição envolveu equilibrar a preservação do acervo com a experiência imersiva do visitante. “Alguns objetos não puderam ser utilizados devido às condições de transporte e exposição, mas ajustamos a seleção de forma a manter a proposta pedagógica e sensorial. No caso dos objetos táteis, houve um cuidado especial com a disposição e a segurança”, explica o curador. A parceria com o Museu da Música e o próprio IBAO também foi essencial para o sucesso da mostra. O maestro Luis Roberto de Francisco cedeu fotografias, gravações históricas e até uma escrivaninha produzida nas oficinas, integrando diferentes narrativas e experiências ao público.
Para Félix, a exposição possui um forte componente social e educativo. Ele espera que os visitantes reconheçam a importância do trabalho manual e das profissões menos valorizadas, refletindo sobre a história do IBAO e, ao mesmo tempo, sobre o presente. “O principal objetivo é estimular a compreensão crítica sobre o valor das profissões manuais, que muitas vezes são subestimadas, e promover o reconhecimento das pessoas que construíram nossa história através de seus saberes práticos”, enfatiza.
A abertura da mostra contará com uma programação especial. Pela manhã, das 9h30 às 12h, haverá uma mesa com especialistas no auditório do IBAO, mediada por Francisco de Carvalho Dias de Andrade, com participação de Félix, Edson Oliveira, Vilma Pavão (ACADIL), Fernanda Carvalho (Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo) e Jonas Soares de Souza (IBAO). À tarde, às 14h, o curador conduzirá uma visita mediada à exposição, permitindo que o público explore detalhadamente cada item e compreenda os contextos históricos, técnicos e sociais por trás das ferramentas e objetos expostos.
A exposição “Aprender com ferramentas: histórias pelas materialidades do Instituto Borges de Artes e Ofícios” ficará em cartaz até 30 de agosto de 2026, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h, no Centro de Estudos do Museu Republicano de Itu. A entrada é gratuita, e mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 4023-0240, menu 3, ou pelo e-mail edu.mrci@usp.br. O Museu Republicano, localizado no Centro Histórico de Itu, reafirma com esta iniciativa seu compromisso com a preservação da memória, a educação patrimonial e a valorização da cultura local.



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