Darly Ana Mariano se torna a 3ª brasileira a completar a prova lendária de Atenas a Esparta; Osires Imenes promete voltar em 2026 para concluir o sonho do casal
É madrugada na Grécia. As ruas estreitas de Esparta, iluminadas por luzes tênues e cercadas por aplausos de voluntários e espectadores, recebem mais uma corredora vinda de longe. A brasileira Darly Ana Mariano, de 37 anos, surge exausta, mas firme, cruzando a linha de chegada após mais de 36 horas de corrida ininterrupta. À sua frente, imponente, a estátua do Rei Leônidas — símbolo de coragem e resistência — testemunha o feito.
Darly, sargento da Polícia Militar do Estado de São Paulo, acabara de se tornar a terceira brasileira da história a completar a Spartathlon, uma das ultramaratonas mais difíceis e lendárias do planeta. Foram 246 quilômetros entre as cidades históricas de Atenas e Esparta, sob calor escaldante durante o dia, frio e chuva na madrugada, e um percurso repleto de subidas, descidas e limites humanos a serem testados.
A seu lado, na largada e em cada etapa do preparo, estava o marido e parceiro de corrida, Osires Izaga Imenes Filho, subtenente da PM, de 49 anos. Ambos fazem da corrida de longa distância não apenas um esporte, mas um modo de vida — uma filosofia que combina disciplina militar, companheirismo e superação pessoal.
“Foi a realização de um sonho e o encerramento de um ciclo. Cada quilômetro percorrido foi uma prova de fé, força e amor por aquilo que fazemos”, conta Darly.
De pequenos desafios à ultramaratona
A trajetória do casal no universo das corridas começou de forma simples — e simbólica. Durante a pandemia, quando as competições de rua estavam suspensas, Darly e Osires passaram a organizar entre amigos “treinos comemorativos”: corridas cuja distância equivalia à idade dos aniversariantes.
Em julho de 2021, quando Osires completou 45 anos, o casal correu 45 quilômetros pelas estradas do interior paulista. A experiência, que começou como uma brincadeira, acendeu uma chama. Logo depois, veio o convite para algo maior: participar da UAI – Ultramaratona Internacional dos Anjos, em Minas Gerais, com 100 quilômetros de percurso na Serra da Mantiqueira. “Foi a nossa estreia no mundo da ultramaratona. Era tudo novo — o planejamento, os treinos, o tempo de prova. Mas aceitamos o desafio de coração aberto”, recorda Osires.
A corrida, realizada em Passa Quatro (MG), marcaria o início de uma jornada intensa e transformadora. O casal não apenas completou o percurso como obteve resultados expressivos: Osires foi vice-campeão masculino e Darly conquistou o terceiro lugar feminino na categoria “survivor”.
Desde então, os dois não pararam mais. Passaram a competir juntos em diversas provas pelo Brasil, consolidando uma rotina de treinamentos diários, alimentação controlada e um laço ainda mais forte: o de dividir sonhos e obstáculos.
Parceria dentro e fora das pistas
A cumplicidade que o casal construiu nas ruas e trilhas é reflexo direto da parceria de vida. Darly e Osires compartilham o mesmo fardamento profissional e a mesma vocação para o serviço público. Ambos atuam na Polícia Militar há anos e afirmam que a disciplina e o senso de dever adquiridos na corporação foram fundamentais para enfrentar os desafios da ultramaratona.
“Somos parceiros em tudo”, diz Darly. “Dividimos o treino, a alimentação, o descanso, e até os momentos de dor e cansaço. Nenhum dos dois propõe algo que possa atrapalhar a rotina do outro. Temos o mesmo foco.”
Osires complementa: “Antes de cada largada, temos um ritual. Desejamos sorte, nos abraçamos e dizemos que cada um vai dar o seu melhor. E confiamos nisso. A corrida é individual, mas a jornada é nossa”, relata.
Essa harmonia, no entanto, não elimina as dificuldades. “A maior prova não é a corrida em si, mas o dia a dia”, explica Darly. “Conciliar a rotina de policial militar, o tempo de treino e a vida pessoal exige organização e muita resiliência. O corpo cansa, mas é a mente que precisa permanecer firme.”
A preparação para o impossível
A notícia da seleção oficial para a Spartathlon 2025 chegou em março, trazendo uma mistura de euforia e responsabilidade. O casal estava entre os 11 brasileiros escolhidos para representar o país na competição, que reúne cerca de 400 atletas do mundo inteiro.
A preparação começou imediatamente. Foram meses de treinos intensos, com corridas diárias de 10 a 18 quilômetros e sessões de fortalecimento muscular. O acompanhamento de um treinador especializado ajudou a estruturar a planilha de treinos, adaptando cada detalhe à exigência da prova.
A rotina também incluiu acupuntura, ozonioterapia e musculação, além de orientação nutricional esportiva. “A alimentação não muda radicalmente, mas passamos a comer em intervalos menores e reforçar a suplementação”, explica Osires.
Darly destaca que o processo foi mais mental do que físico: “A pior parte é a preparação. No dia da corrida, você só precisa correr. Mas no cotidiano, é preciso acordar cedo, treinar mesmo com chuva, conciliar o trabalho e ainda manter a motivação. Isso é o que mais exige força.”
Os desafios da Spartathlon
A Spartathlon nasceu de uma lenda. Inspirada na jornada do mensageiro grego Fidípedes, que teria corrido de Atenas a Esparta para pedir ajuda antes da Batalha de Maratona (490 a.C.), a prova foi recriada em 1982 por oficiais britânicos da Força Aérea. Desde então, tornou-se um dos maiores símbolos de resistência humana no esporte.
O percurso de 246 quilômetros precisa ser completado em até 36 horas. Os atletas enfrentam temperaturas acima dos 30°C durante o dia e menos de 10°C à noite, cruzam montanhas, estradas estreitas e pontos de corte rigorosos. Se o corredor não chegar a determinado ponto dentro do tempo previsto, é automaticamente desclassificado. “É uma prova que coloca o corpo e a mente no limite absoluto”, resume Osires.
Vitória e dor: a corrida que testou o casal
No dia 27 de setembro, sob o sol grego, Darly e Osires alinharam-se na largada em frente à Acrópole de Atenas, junto a centenas de atletas de todo o mundo. Os primeiros quilômetros correram bem. Mas, ainda no início da prova, Osires sentiu uma fisgada no posterior da coxa.
“Eu estava preparado, confiante, mas a lesão me pegou de surpresa. Tentei resistir o máximo possível, mas no quilômetro 160 percebi que, se continuasse, poderia comprometer minha recuperação”, relata.
Foi o momento mais difícil — tanto para ele quanto para Darly. “Ver o Osires desistir foi muito doloroso. Nós treinamos juntos, sonhamos juntos. Mas sabia que ele tinha tomado a decisão certa”, diz ela.
Mesmo sozinha, Darly seguiu. Enfrentou calor extremo durante o dia, chuva e frio na madrugada, além de sono e confusão mental nas últimas horas de prova. “Em certo momento, já não sentia mais as pernas, só a vontade de chegar. A passagem pelo Canal de Corinto foi muito emocionante — é um dos pontos de corte mais temidos —, mas nada se compara ao momento da chegada em Esparta. Foi quando percebi que todo o esforço valeu a pena.”
Um feito histórico para o atletismo brasileiro
Ao cruzar a linha de chegada, Darly não apenas realizou um sonho pessoal: fez história. Tornou-se a terceira mulher brasileira a completar a Spartathlon desde que a prova foi criada, há 42 anos. “É algo que carrego com muito orgulho. Essa conquista é de todos os brasileiros que acreditam que o impossível pode ser alcançado com trabalho e fé”, afirma.
Osires, mesmo lesionado, esteve na chegada para recebê-la. “O momento mais marcante para mim foi vê-la cruzar a linha de chegada. Senti que, de alguma forma, também completei aquela corrida através dela”, conta, emocionado.
Agora, o subtenente planeja o retorno: “Já comecei a recuperação e a preparação para 2026. Vou voltar e ter o encontro completo com o Rei Leônidas, aos pés da estátua. Esse é o meu próximo objetivo.”
Além da corrida, uma filosofia de vida
Para o casal, a ultramaratona é mais do que um esporte, é uma metáfora sobre a vida. “Na corrida, como na vida, não existe atalho. Cada passo é conquistado com esforço”, reflete Darly.
Osires concorda: “A Spartathlon nos ensinou que os limites são muito mais mentais do que físicos. Quando você acha que não pode mais, descobre que ainda tem muito a oferecer.”
Eles continuam treinando juntos e inspirando outros atletas. “Queremos mostrar que é possível conciliar o trabalho, a família e o esporte, mesmo com todas as dificuldades. Basta acreditar e se dedicar”, diz Darly.
E deixa uma mensagem aos brasileiros que sonham em correr longas distâncias:
“Acreditem nos seus sonhos. Foquem nos objetivos. O caminho é duro, mas a recompensa vem para quem tem disciplina, dedicação e resiliência. O resultado é inevitável.”
A corrida mais desafiadora do mundo
A Spartathlon é reconhecida internacionalmente como uma das provas mais duras da ultramaratona mundial. O percurso entre Atenas e Esparta, de 246 quilômetros, deve ser concluído em 36 horas. Os atletas passam por trechos históricos, como o Canal de Corinto e o Monte Parthenio, onde Fidípedes teria encontrado o deus Pã segundo a mitologia.
Além da resistência física, os corredores enfrentam variações de clima e altitude que colocam o corpo em estado de exaustão. Menos de 50% dos competidores costumam cruzar a linha de chegada e cada conclusão é celebrada como um feito heroico.
Em 2025, apenas 11 brasileiros foram selecionados para o desafio. Entre eles, o veterano Carlos Gusmão, que já completou a prova seis vezes. Darly e Osires, vindos de Itu (SP), levaram o nome do Brasil e da Polícia Militar paulista a um novo patamar de superação.



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