Campanha reforça a conscientização contra a violência doméstica em Itu e destaca a importância da denúncia, do acolhimento psicológico e do apoio às vítimas de agressão
Por Mariane Belasco
Agosto é o mês em que a cor lilás se torna símbolo de luta e conscientização contra a violência doméstica e familiar. A campanha Agosto Lilás, celebrada anualmente, marca o aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que trouxe avanços significativos no enfrentamento à violência contra a mulher, estabelecendo mecanismos de proteção e punição para agressores. Apesar de todos os progressos legais, o tema ainda permanece crítico: a violência contra a mulher não é apenas física, mas se manifesta também de forma psicológica, verbal, patrimonial e sexual. Cada uma dessas faces deixa marcas profundas na vida das vítimas, repercutindo em sua saúde emocional, relações sociais e perspectiva de futuro.
Para compreender melhor os impactos da violência e a importância do apoio profissional e da sociedade, esta reportagem conversou com Tatiane Lemos Amorim Dias, psicóloga clínica, e com Christiane Loschiavo Nery, fundadora e presidente da ONG Não Posso Me Calar, de Itu, que atua diretamente no acolhimento e orientação de mulheres em situação de violência.
Os efeitos psicológicos da violência

Segundo a psicóloga Tatiane, as consequências da violência vão muito além dos ferimentos físicos. “As mulheres que vivem qualquer tipo de agressão frequentemente apresentam baixa autoestima, sentimentos de culpa, desesperança, isolamento social, hipervigilância, crises de ansiedade, síndrome do pânico e, em muitos casos, transtorno de estresse pós-traumático”, explica.
A violência psicológica, embora menos visível, pode ser ainda mais devastadora. Tatiane detalha: “Todo agressor é, em algum nível, um abusador emocional. Algumas pessoas se limitam à violência psicológica, enquanto outras avançam para a agressão física. A mulher que sofre humilhações constantes passa a acreditar que não tem valor, se sente culpada pelo comportamento do agressor e acredita merecer os maus-tratos. Isso afeta profundamente a autoestima, a percepção da realidade e a saúde mental da vítima”.
Para familiares e amigos, alguns sinais podem indicar que uma mulher está em situação de violência. Segundo Tatiane, mudanças sutis no comportamento, autodepreciação, isolamento social, tristeza profunda e ferimentos frequentes sem explicação coerente são indícios claros. “A atenção e o acolhimento sem julgamentos podem fazer a diferença, ajudando a mulher a buscar ajuda antes que a situação se agrave”, orienta.
O papel da psicologia no acolhimento
O trabalho do psicólogo vai muito além de ouvir. “Oferecemos um espaço seguro, livre de julgamentos, onde a mulher pode reconstruir sua autoestima, enfrentar sentimentos de culpa e vergonha, enxergar novas possibilidades de futuro e retomar a autoconfiança”, explica Tatiane.
Entre as estratégias utilizadas estão técnicas de psicoeducação, que ajudam a vítima a compreender o ciclo de violência e perceber que não é culpada, manejo dos sintomas de ansiedade, depressão e pânico, fortalecimento emocional e planos de segurança para reduzir riscos de reincidência. “Nosso objetivo é não apenas tratar os efeitos da violência, mas fortalecer a mulher para que ela possa viver de forma independente e segura”, complementa.
A psicóloga reforça ainda a importância da rede de apoio, composta por familiares, amigos e profissionais. “A mulher em situação de violência dificilmente consegue sair sozinha do relacionamento abusivo. A dependência emocional e financeira, combinada com sentimentos de culpa e vergonha, cria barreiras que só podem ser rompidas com apoio próximo e orientação profissional”, enfatiza.
O medo de denunciar e a coragem necessária
O medo é um dos principais obstáculos enfrentados por mulheres que vivem relações abusivas. “O receio pela própria integridade ou pela de pessoas próximas é real e muitas vezes paralisa a vítima. Sua percepção da realidade está alterada pelo ciclo de violência”, afirma Tatiane.
A psicologia atua fortalecendo a coragem da vítima de forma gradual. “Oferecemos escuta qualificada e acolhedora, ajudando a mulher a recuperar a autoestima e perceber que romper com o relacionamento abusivo é possível e necessário. Com suporte adequado, ela consegue identificar seus direitos, planejar sua saída e buscar proteção legal e emocional”, detalha.
A experiência da ONG Não Posso Me Calar

A ONG Não Posso Me Calar, fundada por Christiane Loschiavo Nery, nasceu de uma experiência pessoal com a violência doméstica. Em 2013, Christiane decidiu transformar a própria dor em ação, oferecendo palestras, orientação e apoio a mulheres em situação de violência. Em 2017, o projeto foi formalizado como ONG em Itu/SP, com a missão de acolher, orientar e mostrar caminhos de recomeço para mulheres que precisam de apoio.
Segundo Christiane, a violência mais comum relatada pelas assistidas é a psicológica, seguida da verbal, física, sexual e patrimonial. “Muitas mulheres só procuram ajuda quando a violência chega ao ponto físico, porque muitas vezes não percebem que já sofriam abusos psicológicos ou verbais anteriormente”, explica. Ela ainda alerta que a violência emocional pode deixar marcas mais duradouras que a física, abalando a autoestima, a confiança e a capacidade de projetar um futuro.
A ONG oferece acolhimento emocional, orientação jurídica, apoio psicológico voluntário, rodas de conversa, oficinas de capacitação, Dias da Beleza e cursos de desenvolvimento, além de contar com uma casa de apoio em situações de risco iminente. “Nosso objetivo é fortalecer cada mulher para que ela tome decisões seguras e consiga reconstruir sua vida”, diz Christiane.
A sociedade e o papel das campanhas de conscientização
O Agosto Lilás cumpre papel fundamental na prevenção e conscientização, reforçando direitos e divulgando canais de denúncia. “Quanto mais se fala sobre violência contra a mulher, mais a sociedade compreende a gravidade do problema e se engaja em formar uma rede de apoio às vítimas”, afirma Tatiane.
Christiane acrescenta que a informação precisa ser contínua. “É preciso que escolas, comunidades, mídia e poder público tratem o tema ao longo de todo o ano, e não apenas em agosto. Só assim podemos desconstruir a cultura machista que ainda naturaliza abusos e negligências”, ressalta.
A psicóloga destaca também um aspecto mais profundo: “A sociedade precisa resgatar o olhar sobre a mulher em sua essência. Apesar da igualdade formal entre homens e mulheres, fisicamente a mulher ainda é mais vulnerável. É necessário que homens da família, colegas e sociedade compreendam seu papel de proteção e respeito, evitando que agressões sejam naturalizadas”.
Mensagem final: quebrando o silêncio
A mensagem das especialistas é clara e uníssona: nenhuma mulher deve enfrentar a violência sozinha. Tatiane aconselha: “Você não é culpada, ao contrário, é vítima. Acredite, você é mais forte do que pensa e merece ser feliz. Quebre o silêncio e peça ajuda”.
Christiane complementa: “Priorize sua vida e a vida de seus filhos. Dê o primeiro passo, mesmo com medo. Há canais, redes de apoio e instituições prontas para acolher. Não desista da vida, porque, como disse Maria da Penha: ‘A vida começa quando a violência acaba’”.
A campanha Agosto Lilás é, portanto, mais do que um símbolo: é uma oportunidade de conscientização, prevenção e transformação social, lembrando a cada mulher que ela merece viver sem medo, com respeito e dignidade.
Números alarmantes de violência contra a mulher em Itu
Delegada de Itu reforça ações e orientações durante a campanha Agosto Lilás
Durante a campanha Agosto Lilás, a Delegada de Polícia Titular de Itu, Márcia Pereira Cruz, reforça a importância de combater a violência contra a mulher na cidade. Ela destaca que, embora haja avanços, os registros ainda mostram prevalência de violência física, psicológica e patrimonial, especialmente entre mulheres em situação de vulnerabilidade, sendo os agressores, em sua maioria, parceiros ou ex-parceiros.
A Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher (DDM) de Itu registrou, de janeiro a agosto deste ano: 1 feminicídio, 297 casos de lesão corporal e 865 ameaças. Esses números reforçam a importância da conscientização e da denúncia, mostrando que a violência contra a mulher ainda é um problema grave e presente na sociedade.
Em Itu, a DDM está localizada na Avenida Goiás, 204, Jardim Novo, e o atendimento pode ser feito pelos números (11) 4488-7300 ou (11) 4488-13366. É essencial que a vítima se sinta segura e respaldada para denunciar qualquer tipo de agressão. Além disso, os canais mais seguros incluem o Disque 180, a Delegacia da Mulher, a Delegacia Eletrônica e, em casos de risco imediato, o 190 (Polícia Militar) ou 153 (Guarda Civil Municipal).
A delegada orienta que mulheres em situação de violência busquem apoio, mesmo que inicialmente não se sintam seguras para denunciar. Ela ressalta que a Polícia Civil oferece acompanhamento completo, desde o suporte para registro da denúncia até orientação sobre medidas protetivas de urgência, garantindo proteção e acolhimento às vítimas.
O trabalho é complementado por profissionais da psicologia e apoio social. A psicóloga Tatiane Lemos Amorim Dias destaca: “O apoio de amigos e familiares é essencial. Ele cria uma rede de proteção que muitas vezes salva vidas, dando à mulher confiança para romper o ciclo de violência.” Já a assistente social Christiane reforça: “Quando a mulher tem medo de denunciar, oferecemos total apoio, acompanhando-a até a delegacia ou auxiliando na denúncia remota. Ao mesmo tempo, trabalhamos para fortalecer a autoestima e mostrar que ela não está sozinha nesse processo.”
Por fim, a delegada lembra que há um projeto em andamento para a construção de uma sede própria da Delegacia de Defesa da Mulher, permitindo um atendimento ainda mais eficiente e humanizado. A prevenção e a proteção começam com informação, empatia e ação coletiva, e é dever de toda a sociedade garantir os direitos das mulheres.



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