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Agosto Dourado: Celebrando a Importância do Aleitamento Materno

A amamentação é uma das principais prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Ministério da Saúde (MS) por trazer inúmeros benefícios para o binômio mãe-bebê. Inclusive, a amamentação é responsável por atuar diretamente no combate à desnutrição infantil, especialmente em regiões de vulnerabilidade social.

Dados da Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) mostram a má nutrição nos primeiros anos de vida da criança podem trazer danos irreversíveis ao desenvolvimento físico e cerebral.  O leite humano é completo em nutrientes e capaz de se adaptar para proteger a criança de doenças e deve ser oferecido de forma exclusiva – sem fórmula infantil ou alimentos – durante os seis primeiros meses de vida da criança. Após os seis primeiros meses, o leite humano deve entrar como complemento à alimentação, sendo que o leite humano continua sendo o principal alimento da criança durante todo o primeiro ano de vida.

A Assembleia Mundial da Saúde (MAS) aprovou em 2012 a meta global de nutrição para aumentar a taxa de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de idade em até 50% até 2025.

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos traz que não há qualquer necessidade de introduzir nenhum tipo de alimento nos seis primeiros meses do bebê, nem mesmo a fórmula como complemento ao leite humano se não há qualquer indicação clínica de necessidade.

A pediatra e neonatalogista, Amanda Conde, explica que a introdução de alimentos antes dos seis meses, associados aos sinais de prontidão para início da introdução alimentar, podem dificultar a absorção de nutrientes e causar diarreia, alergias e até desnutrição.

“O intestino e o sistema imunológico do bebê ainda estão imaturos [antes dos seis meses de idade]. Introduzir chás, água ou papinhas antes da hora aumenta risco de diarreia, alergias e até desnutrição, porque esses alimentos ‘roubam espaço’ do leite materno. Antes dos seis meses, a única bebida e comida que o bebê precisa é o leite da mãe, ou fórmula, se for o caso. É simples: cedo demais, só atrapalha”, disse Amanda.

O Ministério da Saúde menciona que a amamentação é benéfica não só para a criança e a mãe, mas também para o meio ambiente e sociedade. Dentre os benefícios citados, o MS ressalta que a amamentação ajuda a diminuir custos do sistema de saúde público, porque minimiza a incidência de doenças na primeira infância e também a longo prazo. Além disso, também contribui na melhoria da nutrição, educação e saúde a longo prazo, contribuindo para uma sociedade mais desenvolvida econômica e nutricionalmente.

A pediatra Amanda também comentou que se tratando de crianças saudáveis, há diferenças bastante sutis no desenvolvimento de uma criança amamentada e não amamentada, que faz uso adequado de fórmula infantil. Porém, isso não torna a fórmula infantil equivalente ao leite humano.

“O leite humano é um alimento vivo: muda sua composição ao longo do dia, da mamada e do crescimento do bebê. Fórmula infantil é uma alternativa segura quando há indicação médica, mas é estática — sempre igual. Há raras situações em que a fórmula é necessária, como doenças metabólicas específicas ou quando a mãe não pode produzir leite. O uso indiscriminado [de fórmula infantil], especialmente de forma mista sem necessidade, pode reduzir a produção de leite materno e aumentar riscos de alergias e infecções”, explicou a pediatra.

Amanda reforça ainda sua percepção em relação ao desenvolvimento infantil comparando as duas formas de alimentação. “Na minha experiência de 20 anos atendendo bebês, a diferença existe, mas é sutil quando falamos de crianças saudáveis. O leite materno oferece anticorpos, gorduras, proteínas e açúcares específicos que são feitos sob medida para aquele bebê — como se fosse um ‘remédio’ personalizado da mãe para o filho. No dia a dia, observo que crianças amamentadas tendem a ter menos infecções no primeiro ano, melhor ganho de peso e, muitas vezes, uma relação mãe-bebê mais conectada. Mas é importante reforçar: com acompanhamento adequado, amor e estímulo, crianças não amamentadas também podem ter um desenvolvimento pleno”, disse.

O MS reforça que a amamentação contribui não só com o desenvolvimento do indivíduo, mas também com a diminuição de poluentes, uma vez que não demanda água, energia ou combustível para sua produção, como a indústria da fórmula infantil demanda, por exemplo. Dentre os benefícios para a criança e mãe diretamente relacionados a amamentação, o MS menciona: proteção contra diarreias, infecções respiratórias e alergias, diminuição do risco de hipertensão, colesterol alto, diabetes e obesidade; redução do risco de hemorragia pós-parto, diminuição do risco de desenvolver câncer de mama, ovários e colo do útero.

AGOSTO DOURADO

Muitos desafios impedem a amamentação exclusiva, como a licença maternidade de apenas quatro meses, quando a orientação de todos os órgãos de saúde é que a amamentação seja exclusiva até seis meses de idade e complementar até os dois anos. O desafio se intensifica quando abordamos a licença paternidade, que é de apenas cinco dias. Isso significa que, além de se preocupar com a volta ao trabalho, com creches que viabilizem a amamentação, com trabalhos flexíveis para fazer a ordenha do leite – técnica útil para que não haja diminuição da produção de leite -, quem amamenta também precisa se responsabilizar sozinha pelos afazeres domésticos, alimentação e, muitas vezes, pelos cuidados da criança.

Outros desafios como a falta de manejo adequado da amamentação nas maternidades, interrupção da Golden Hour (hora dourada – representa a primeira hora de vida do bebê), falta de conscientização sobre amamentação pelas redes de apoio, falta de incentivo à amamentação por parte de profissionais da saúde também contam para que o desmame precoce tenha taxas tão altas no mundo todo.

Para mudar essa realidade, foi criada a campanha do Agosto Dourado, que incentiva o aleitamento materno e sugere discussões para criação de políticas públicas e viabilidade da amamentação até pelo menos os dois anos de idade. No Brasil, foi instituída a Lei Federal nº 13.345 de 2017

Questionada pela reportagem do Jornal Agora Itu, a pediatra Amanda explicou que a chamada “Golden Hour” é um verdadeiro gatilho para a amamentação e que para aumentar as taxas de amamentação no país, os profissionais da saúde não só devem viabilizar a Golden Hour quando possível, mas também ter escuta ativa ao paciente.

“A chamada ‘hora dourada’ — aquele primeiro contato pele a pele logo após o nascimento — é um verdadeiro gatilho para o sucesso da amamentação. É o momento em que mãe e bebê estão cheios de hormônios que facilitam o vínculo e o início da sucção. Se todo nascimento em que isso fosse possível tivesse a Golden Hour, sem dúvida veríamos um aumento importante nas taxas de amamentação exclusiva. É como plantar uma semente no momento perfeito: a chance dela florescer é muito maior”, comentou.

A pediatra continua: “O apoio à amamentação começa na escuta. Antes de dar uma cartilha, é preciso entender a história, os medos e as dificuldades daquela mãe. Explicar a pega correta, ajudar nas primeiras mamadas e, principalmente, evitar julgamentos. Nós, pediatras, precisamos ser facilitadores, não fiscais da amamentação. Mostrar caminhos, não apontar erros”, disse Amanda.

A pediatra comentou também sobre o tema da campanha do Agosto Dourado 2025: “Priorize a Amamentação: Crie Redes de Apoio Sustentáveis”. Segundo Amanda, falar sobre amamentação, sem falar sobre rede de apoio, é como querer que uma flor floresça sem água. “Precisamos de licenças maternidade e paternidade mais longas, políticas que permitam pausas para ordenha no trabalho e, principalmente, informação para avós, parceiros, chefes e cuidadores. A mãe não amamenta sozinha: ou todos ajudam, ou todos atrapalham”, disse.

A campanha do Agosto Dourado não foca apenas na amamentação nos primeiros seis meses, muito embora a amamentação nesse período seja fundamental. O Agosto Dourado busca, além de aumentar as taxas de amamentação exclusiva, também foca em aumentar as taxas de amamentação prolongada – quando a criança é amamentada por mais de dois anos –, visto que a OMS, junto do Ministério da Saúde e outros órgãos de saúde nacionais e internacionais recomendam a amamentação por pelo menos dois anos.

Maria Clara é doula em Itu e mãe de duas crianças. Ao todo, amamentou por mais de seis anos consecutivos, sendo que amamentou por dois anos e meio sua filha mais velha e por três anos e meio seu filho mais novo.

Durante parte desse tempo, Clara amamentou no que é chamado “amamentação tandem”, que é quando a lactante amamenta duas crianças com idades distintas, comumente uma criança mais velha e um recém-nascido. A palavra tandem significa “associado”. Maria Clara também continuou amamentando quando engravidou do seu filho mais novo, mesmo sofrendo com a perturbação da amamentação – quando a lactante sente um grande desconforto ao amamentar.

Clara relata que teve muitos desafios ao amamentar, especialmente quando teve sua primeira filha, onde ainda não estava munida de informações adequadas. Ela conta que acabou amamentando no que chamam de “amamentação mista”, quando é oferecido o leite humano e fórmula infantil, por falta de informação, mas principalmente pelas fissuras mamilares devido a falta de manejo adequado. Porém, Clara não sabia que o uso de bicos artificiais poderia piorar ainda mais o quadro das fissuras, por conta da mudança no padrão de sucção no peito e nos bicos. Porém, Maria Clara sempre ofertava o seio quando sua filha solicitava.

A falta de suporte emocional da rede de apoio foi um dos maiores desafios para que Clara conseguisse manter a amamentação. As pessoas que a rodeavam não entendiam a insistência em amamentar e não incentivavam buscar por ajuda. A solução que a rede de apoio propunha era sempre o desmame.

“A questão emocional me pegava muito, porque meus seios tinham um formato diferente e sempre foram muito pequenos. Eu ouvia que por conta disso eu não conseguia nutrir meus filhos, pois ‘seios pequenos não produzem leite suficiente’. Era o que eu sempre ouvia, mas mesmo assim algo dentro de mim não me deixava desistir, usava apetrechos como concha de silicone por exemplo, que não resolvia o problema, mas segui mesmo assim.”, disse Clara.

Maria Clara mencionou que quando engravidou pela segunda vez, toda a insegurança voltou. Ela ainda amamentava a filha mais velha, mas mesmo assim teve fissuras e muita dor ao amamentar, além de ingurgitamento mamário – conhecido como “peito empedrado” –, porque por vezes, Clara não conseguia permitir que o bebê mamasse devido ao medo da dor e, por isso, passou a ofertar novamente mamadeira e fórmula.

Quando o filho mais novo de Clara completou cerca de cinco meses de vida, ela passou a procurar algo que realmente pudesse ajudar e resolver o problema, para tornar a amamentação menos desafiadora. Foi neste momento que Clara percebeu que era possível amamentar sem dor. “Foi nesse momento que percebi que tudo que eu ouvia que era normal, não era. Eu poderia mudar a minha realidade na amamentação”, lembrou.

“Descobri também que a forma diferente da minha mama se tratava de uma hipoplasia, e que poderia ter ou não dificuldades na produção por isso. Foi um alívio saber que era algo fisiológico”, explicou Clara.

Ainda há receio e resistência em permitir que crianças mais velhas sigam mamando. Muitas pessoas consideram que o leite após os seis meses ou um ano se torna fraco e que a amamentação se torna desnecessária. Porém, não é o que diz os órgãos de saúde, que recomendam a amamentação pelo tempo mínimo de dois anos, sem data limite para que o desmame aconteça – diferente da fórmula infantil, onde a interrupção do uso deve ser feita até um ano de idade, salvo em casos específicos de alergia alimentar.

A pediatra Amanda explicou que após os dois anos, o leite humano continua tendo propriedades nutricionais excelentes, além de trazer conforto emocional para a criança que ainda está aprendendo a lidar com as próprias emoções. “Após os dois anos, o leite materno continua sendo fonte de proteínas, gorduras boas e anticorpos. A criança ganha reforço imunológico, nutrição complementar e um conforto emocional que ajuda em fases de transição, como entrada na escola. A longo prazo, há estudos que mostram menor risco de obesidade e doenças crônicas. No curto prazo, vejo crianças mais seguras e com menos episódios de doença”, disse Amanda.

A pediatra lembrou ainda de um caso onde o leite humano foi fundamental na recuperação de uma criança prematura. “Nunca vou esquecer de um bebê prematuro que acompanhei, nascido com menos de 1kg. A mãe, determinada, extraía leite religiosamente, mesmo em meio à exaustão. O leite materno não só nutriu, como ajudou o bebê a vencer infecções e ganhar peso de forma surpreendente. Hoje, ele é uma criança saudável e ativa. Essa história me lembra todos os dias que o leite materno é muito mais do que comida: é tratamento”, enfatizou.

PROGRAMA DE INCENTIVO: NANA NENÉM

Em Itu, a Prefeitura Municipal, por meio da Secretaria de Saúde, desenvolveu Centro Integrado de Assistência à Gestante, Puérpera e Criança (Nana Nenê). O Centro Integrado atende gestantes e puérperas da rede municipal de saúde, rede particular e convênios das 7h às 17h, localizado na rua Capitão Silvio Fleming, 433, Vila Nova

O Nana Nenê promove apoio à amamentação, educação em saúde com cursos e palestras para todas as gestantes do município, curso de shantala para mães com bebês a partir de um mês, e Programa Neonatal de Risco, voltado para prematuros e bebês que passaram pela UTI Neonatal da Santa Casa de Itu.

O atendimento em apoio à amamentação acontece diretamente para mães na maternidade da Santa Casa de Itu. Um técnico de enfermagem da equipe faz visitas diárias na Santa Casa e cadastra as puérperas no serviço. Por meio do WhatsApp, a assistência perdura até que a lactante se sinta segura para seguir a amamentação sozinha. Caso haja necessidade, o profissional faz visitas presenciais domiciliares ou agendamento ambulatorial.

“As demais mães do município que necessitarem do serviço, ou seja, partos em outros hospitais convênios ou particulares, terão acesso e serão atendidas assim que fizerem o contato. No serviço temos enfermeiras, técnicas de enfermagem, psicóloga, assistente social, nutricionista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, pediatras neonatologistas”, explicou a Prefeitura por meio da assessoria de imprensa ao Jornal Agora Itu.

O Projeto Nana Nenê surgiu em 2000 e vem contribuindo para o aumento da taxa de aleitamento exclusivo no município. De acordo com dados fornecidos pela assessoria de comunicação da Prefeitura, no ano 2000 a cidade de Itu tinha uma taxa de aleitamento materno exclusivo de 28%, em 2010, a taxa havia subido para 47% e na última pesquisa, em 2019, a taxa estava em 57%. “Isso tem grande significância, pois contribui para a queda da taxa de morbimortalidade infantil, além do conforto e segurança para a família. No Brasil temos, hoje, em torno de 40% de aleitamento materno exclusivo até o 6º mês de vida, não é diferente da taxa global”, comentou a assessoria de imprensa da Prefeitura.

BANCO DE LEITE

A cidade de Itu conta com um posto de coleta de leite humano da Santa Casa de Itu. A ideia é estimular lactantes a serem doadoras de leite, afim de beneficiar crianças que não estão podendo ser amamentadas pelas próprias mães, como crianças que estão em UTI Neonatal.

“O funcionamento é simples, basta a mãe apresentar o desejo em ser doadora que a equipe fará uma triagem e, se estiver dentro dos quesitos, será realizada a coleta de sangue em sua residência para os exames necessários. Após liberados os resultados serão realizados um cadastro dessa mãe pelo profissional do posto de coleta da Santa Casa. A partir de então, semanalmente, às quartas-feiras, uma pessoa da equipe do Nana Nenê faz a coleta do leite humano congelado nas residências para ser encaminhado pelo posto de coleta para a pasteurização no Banco de Leite Humano de Sorocaba, após parte desse leite retorna aos prematuros da UTINeo Santa Casa. Esse leite é somente para os internos da UTINeo Santa Casa”, explicou a assessoria da Prefeitura.

A assessoria ainda mencionou que há diferença entre a doação de leite e a amamentação cruzada – quando o bebê é amamentado por outra pessoa que não tem vínculo com a criança. “Mães doadoras de Leite Humano são mulheres cadastradas após critérios estabelecidos pelo Banco de Leite Humano Sorocaba, sendo pasteurizado antes de ser ofertado aos bebês da UTINeo. Amamentação cruzada é quando uma mulher amamenta o filho de outra sem qualquer controle, ou seja, existem doenças que passam através do leite humano, portanto, essa prática é contraindicada”, comentou a assessoria da Prefeitura.

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