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Eduardo Kobra: a arte que ultrapassa o muro

Muralista fala sobre o Instituto Kobra, sua trajetória e como a arte tem se tornado ferramenta de transformação social

Eduardo Kobra é hoje um dos artistas urbanos brasileiros mais reconhecidos no mundo, mas sua relação com a arte começou muito antes de ganhar grandes proporções. Nascido e criado na periferia da zona sul de São Paulo, ele teve na rua seu primeiro ateliê e nas paredes o primeiro espaço de expressão. O que surgiu como forma de ocupação criativa das calçadas e vielas, em uma época em que o grafite ainda lutava por reconhecimento, transformou-se ao longo dos anos em uma trajetória poderosa, marcada por estética vibrante, técnica apurada e uma mensagem profundamente humana.

Kobra alcançou projeção internacional ao levar para edifícios e superfícies monumentais murais que combinam cores intensas, geometria característica e retratos de figuras históricas, ícones culturais, lideranças sociais ou personagens comuns que, de alguma forma, representam histórias que precisam ser contadas. Suas obras já podem ser vistas em diversos países e se tornaram símbolos de sensibilização, memória e reflexão, alcançando públicos que muitas vezes não visitariam museus ou galerias tradicionais. Para o artista, a rua sempre foi o território mais democrático da arte, o lugar onde a obra não pede convite para ser vista e onde todos podem se identificar com o que está diante dos olhos.

Ao longo de sua carreira, Kobra sempre dedicou parte de seu tempo a ações sociais, visitas a instituições, conversas com jovens e iniciativas que valorizavam a educação, o acesso à cultura e o resgate da autoestima de comunidades. Em 2021, porém, essas ações ganharam nova dimensão com a criação do Instituto Kobra, entidade que passou a organizar, ampliar e estruturar projetos sociais e educativos de forma contínua. Desde então, o Instituto tem desenvolvido atividades voltadas a crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, especialmente moradores de regiões periféricas, oferecendo oficinas de arte, visitas, exposições, palestras e outras ações que aproximam essas comunidades do universo da cultura.

O objetivo central é mostrar que a arte pode abrir caminhos concretos de transformação de vida, funcionando como expressão, acolhimento, formação e até porta de entrada para possibilidades profissionais. As oficinas oferecidas pelo Instituto mostram que lápis, tinta e pincel podem virar ferramentas de autonomia, escuta e construção de identidade. Jovens que muitas vezes nunca haviam entrado em um espaço cultural encontram no projeto um lugar onde sua experiência de vida, sua história e sua realidade são reconhecidas e valorizadas. Mais do que produzir muralistas ou artistas plásticos, o Instituto busca construir cidadãos mais conscientes, preparados e inseridos em um contexto social que raramente lhes oferece oportunidades.

O trabalho também inclui apresentações culturais, participação em eventos, ações de impacto social, painéis artísticos com temáticas importantes e encontros com a comunidade. Cada projeto nasce do entendimento de que a arte não precisa apenas decorar; ela pode desestabilizar, provocar, tocar e fazer pensar. Para Kobra, a sensibilidade estética sempre esteve acompanhada de uma responsabilidade ética: a de usar sua visibilidade como ponte para que outras histórias ganhem voz. Foi esse princípio que o guiou em murais que retratam lutas, causas humanitárias e personagens que marcaram a história com coragem, resistência e inovação.

A criação do Instituto não apenas fortaleceu essas iniciativas, como também aproximou uma equipe multidisciplinar com educadores, artistas, produtores e coordenadores que hoje dão sustentação aos projetos. A organização sistematiza o que antes acontecia de forma pontual e amplia o alcance para escolas públicas, instituições sociais, comunidades e grupos que antes teriam muito mais dificuldade de acessar atividades culturais desse porte. Com isso, o Instituto Kobra se tornou uma entidade que opera na intersecção entre arte, cidadania e transformação humana, alinhando o gesto estético ao impacto social de maneira permanente.

A trajetória do artista também influencia diretamente a condução dos projetos. Vindo da periferia e vivenciando de perto a ausência de estímulos culturais formais na infância e adolescência, Kobra sabe o quanto a falta de acesso pode limitar horizontes. É por isso que ele faz questão de lembrar que, antes de técnicas e métodos, é preciso uma experiência verdadeira de acolhimento, pertencimento e inspiração. Muitos jovens que entram em contato com o Instituto encontram ali pela primeira vez a sensação de que seus sonhos são possíveis e de que existem caminhos que podem ser construídos com esforço, criatividade e apoio.

Nesta entrevista em formato ping-pong, o artista reflete sobre essa caminhada, comenta a força da arte como instrumento de mudança, fala sobre a importância das ações educativas, sobre as transformações que têm testemunhado na vida dos participantes e sobre como enxerga o papel do artista no contexto social atual. O leitor encontra neste material uma conversa que atravessa memória pessoal, vocação, responsabilidade coletiva e o compromisso permanente com a construção de um futuro em que a arte esteja presente não apenas como imagem, mas como agente ativo de transformação, educação e cidadania. Confira:

Jornal Agora: Você chegou a Itu durante a pandemia. Como foi esse processo de mudança e o que te trouxe para cá?

Eduardo Kobra: Foi durante a pandemia. Eu sempre tive vontade de sair de São Paulo, mas estava muito preso à cidade, porque foi lá que consolidei minha carreira, meus primeiros trabalhos e clientes. Tinha o desejo de viver em um lugar mais tranquilo, mas não conseguia me desligar. Porém, naquele período, vivi um episódio muito difícil: minha esposa estava grávida da nossa filha Catarina, ela nasceu e faleceu apenas 12 horas depois. Aquilo nos abalou profundamente e decidimos sair de São Paulo. Como eu já frequentava Itu antes, sempre vindo para hotéis-fazenda e locais próximos para descansar, decidimos ficar aqui. Me surpreendi com o acolhimento da cidade e comecei a descobrir muitas oportunidades, como o Museu Fama. Aos poucos, encerrei o escritório e o ateliê que eu mantinha no Beco do Batman e montei tudo em Itu. Depois participamos da concorrência pública para ocupar esse espaço (Estação de Itu onde será a futura instalação do Instituto Kobra) e vencemos. Então entendi que o propósito estava aqui.

Jornal Agora: Você vem de uma origem periférica em São Paulo. Como essa vivência influenciou sua trajetória e o trabalho do Instituto?

Eduardo Kobra: Influenciou em todos os aspectos. Eu me considero um privilegiado por ter vivido ali, porque foi onde desenvolvi minha visão de mundo, minhas bases e meus valores. Mas também enfrentei muitas dificuldades. Como muitos jovens da periferia, via pessoas talentosas que não tinham nenhuma oportunidade. Vi amigos entrarem no crime, serem presos, morrerem. Eu não tinha apoio nem incentivo para seguir com a arte, e na época não existiam referências bem-sucedidas nesse caminho. Quando eu saía para pintar, era criticado. As pessoas gritavam de ônibus: “vai trabalhar, vagabundo”. Eu precisava provar o tempo todo que não era um criminoso, que só queria me desenvolver como artista. Essa realidade moldou tudo o que faço hoje e é justamente o que consigo enxergar quando vejo jovens pedindo ajuda, buscando uma oportunidade, querendo um caminho. Por isso, hoje eu me coloco à disposição por meio do Instituto e das minhas obras.

Jornal Agora: Em que momento você percebeu que a arte poderia realmente mudar sua vida?

Eduardo Kobra: Desde sempre. A arte foi meu antídoto, meu alívio, minha válvula de escape. Mesmo quando tudo e todos eram contra — escola, família, polícia, vizinhos — eu pintava com o mesmo entusiasmo que tenho hoje. Nunca busquei dinheiro; meu objetivo era evoluir, aprender a desenhar e conquistar meu caminho. Mas não havia exemplos, não havia uma trilha para seguir. Apesar disso, continuei. E hoje vejo que aquela insistência é o que permitiu que minha vida se transformasse e que meu trabalho chegasse tão longe.

Jornal Agora: Você já tem uma relação forte com Itu: o ateliê no Museu Fama, agora o Instituto. O que motivou essa escolha?

Eduardo Kobra: Eu vim para cá buscando paz, natureza e ar puro, e encontrei uma cidade que me recebeu com carinho. Foi confortável chegar aqui e fui descobrindo as possibilidades aos poucos. Percebi que meu trabalho não depende mais de morar em São Paulo; ele está no Brasil e no mundo. O aeroporto é próximo, a localização é estratégica e, com o tempo, percebi que tudo estava convergindo para isso. E então surgiu a oportunidade deste espaço, que conseguimos por meio de concorrência pública, e que hoje está se tornando a sede do Instituto.

Jornal Agora: Você está transformando o galpão em que estamos agora. Como imagina este espaço quando estiver concluído?

Eduardo Kobra: Quando chegamos aqui, o espaço estava bastante deteriorado e eu vi nele uma oportunidade gigante de transformação. O Instituto já fazia ações sociais há muitos anos, mas nunca tivemos uma sede. Aqui eu enxergo um espaço que pode realmente oferecer oportunidades para jovens e comunidades. Vejo oficinas, eventos, aprendizado, novas chances de vida. Mostrei o projeto para várias pessoas, inclusive investidores, e algumas quiseram levar a ideia para São Paulo. Mas eu sempre dizia: não. Vai ser em Itu. Além disso, quero criar um corredor artístico que conecte o Instituto ao Museu Fama, passando pela estação e o centro histórico. Também tenho um plano de trazer entre 30 e 50 dos maiores artistas do mundo para expor aqui. Estamos resolvendo a parte estrutural e financeira, mas se tudo der certo, até dezembro do ano que vem teremos um espaço único na América Latina, similar apenas a um dos Estados Unidos.

Jornal Agora: Você já tem recordes e murais espalhados pelo mundo. Como mantém a inspiração constante?

Eduardo Kobra: Primeiro, tenho consciência da responsabilidade que é ocupar espaços públicos no mundo todo. Vindo de onde vim, imaginava muito menos do que isso. Hoje tenho 57 murais só nos Estados Unidos. Fiz tudo isso sem falar inglês, então sei do valor dessa jornada. Isso me motiva. E sou muito ligado ao processo criativo. Para um único mural, faço 10, 20 ou até 30 composições diferentes. Além disso, hoje meu trabalho está não só nas ruas, mas em galerias e museus importantes. A credibilidade que o muralismo me deu abriu portas no mercado formal da arte. E gosto de destacar o trabalho na Europa, onde tudo é tombado, histórico, e ainda assim conseguimos pintar com relevância. Nos Estados Unidos o street art é mais natural; na Europa é simbolicamente muito mais difícil. Isso se conecta à minha origem, ao hip-hop, e ao momento em que decidi construir meu caminho próprio, com temas como paz, coexistência, tolerância e união dos povos.

Jornal Agora: Houve algum mural que te marcou mais profundamente?

Eduardo Kobra: Muitos. Mas um que teve um peso muito especial foi o projeto “Cores pela Liberdade”, em Nova York. É uma cidade dificílima para aprovar murais, e muita gente dizia para eu desistir. Mas persisti, me mudei para lá por conta disso e acabei pintando 18 murais na cidade. Entre eles a fachada do World Trade Center e a fachada da ONU. Nunca ninguém tinha pintado aquela frente antes e receber aquele convite foi marcante. Ainda mais porque a ONU se conecta com muitas das mensagens dos meus trabalhos e ali dentro está Guerra e Paz, do Portinari. Hoje fui convidado para a celebração de 80 anos da ONU, no dia 23 de janeiro, quando será lançado um selo oficial com a minha arte. É algo muito simbólico para mim.

Jornal Agora: Para encerrar, o que você deseja para o futuro do Instituto e para a cidade que te acolheu?

Eduardo Kobra: Quero continuar transformando vidas através da arte. Quero ver jovens descobrindo que podem viver de seu talento, encontrar dignidade e futuro criando. Quero trazer artistas do mundo todo para Itu, fazer daqui uma referência internacional e abrir ainda mais portas para a cidade. E quem quiser conhecer esse movimento já pode visitar meu ateliê no Museu Fama. Quem quiser somar ao projeto, será bem-vindo.

O Instituto Kobra conta com o apoio de empresas e profissionais que acreditam no papel transformador da arte e contribuem para que os projetos sociais sigam impactando crianças, jovens e comunidades. Entre os parceiros estão Alexandre Chaguri, Prado Construções, Aquarius Acabamentos, Natilux, Itu Gessos, Porto Pedras, Santa Clara Sistemas Construtivos, Savi Advocacia e Esquadritu. Cada um, à sua maneira, colabora para fortalecer iniciativas culturais, educativas e estruturais do Instituto, permitindo que oficinas, ações e atividades continuem alcançando quem mais precisa.



One response to “Eduardo Kobra: a arte que ultrapassa o muro”

  1. Jornal Agora Itu, parabéns pela entrevista! Eduardo Kobra é simplesmente fantástico, como pessoa e como artista! Grandioso como nossa cidade! ♥

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