Produção independente mergulha na história de fé, resistência e identidade que transformou a paisagem cultural da cidade
A Cavalheiro Produções está em fase de gravação do documentário “Missa Afro de Itu – A história do povo preto que o berço da República não contou”, uma obra que nasce do compromisso com a memória, a cultura e a preservação das histórias reais que moldam a identidade do povo ituano. O filme é dirigido por Felipe Cavalheiro, que explica que a ideia surgiu da necessidade de registrar e preservar a história de uma das celebrações mais simbólicas da cultura negra local.
Segundo ele, a Missa Afro de Itu é mais do que uma celebração religiosa, é um ato de resistência e de afirmação identitária que há mais de três décadas rompe o silêncio e devolve protagonismo ao povo preto da cidade. “Senti a necessidade de eternizar essa narrativa antes que ela se perdesse na oralidade”, explica.
O ponto de partida da pesquisa foi a escuta. Durante meses, a equipe ouviu os idealizadores da Missa Afro e também as novas gerações que mantêm viva a tradição. O roteiro foi construído a partir dessas vozes, entrelaçadas a uma contextualização histórica sobre o papel do sincretismo religioso na formação da fé e da cultura do interior paulista.
Além da direção e produção executiva de Felipe Cavalheiro, a direção de fotografia é assinada pelo artista e cineasta Thiago Cóstackz. A pesquisa histórica teve apoio de lideranças culturais e religiosas da Comunidade de Terreiro de Itu, além da participação de profissionais locais comprometidos com o registro da memória afro-brasileira.
As gravações estão sendo realizadas integralmente em Itu, cidade escolhida não apenas por sua relevância geográfica, mas também simbólica. Para o diretor, “retratar a Missa Afro é revelar uma face da cidade que por muito tempo foi invisibilizada”. Ele destaca que “Itu é o berço da República, mas também o berço da resistência negra paulista”. Entre os maiores desafios do projeto, Cavalheiro aponta “o equilíbrio entre emoção e neutralidade, sem distorcer as verdades de cada depoente, e a conciliação de agendas e recursos técnicos para garantir a qualidade cinematográfica de uma produção totalmente independente”.
Fé, identidade e resistência
A Missa Afro representa, segundo o diretor, um gesto de resistência que atravessou décadas. “Ela constrói pontes entre a fé ancestral e a fé cristã, sendo um exemplo concreto de inculturação: a integração das tradições africanas em um espaço antes dominado pela liturgia europeia”, aponta.
A tradição afro-brasileira manifesta-se em Itu através dos terreiros, congadas, batuques e festas populares, e a Missa Afro tornou-se o ponto de encontro dessas expressões, unindo o sagrado e o social. Felipe explica que “a memória é uma forma de reparação” e que “documentar essa história é garantir que as próximas gerações compreendam de onde viemos e para onde queremos seguir”.
Entre as figuras centrais da narrativa estão Maria Inês, Djalma e Marta do Nascimento, lideranças que ajudaram a consolidar a Missa Afro, além do Diácono José Carlos, que representa a reflexão dentro da própria Igreja, e do indígena Caetano, que compartilha a emoção de revisitar suas origens e reafirmar a importância de seu povo na história ituana.
O documentário busca retratar a força do povo preto através da presença e da autenticidade. “Não há encenação, há presença”, ressalta. O filme dá protagonismo às pessoas pretas que construíram essa história, respeitando a estética, o ritmo e a espiritualidade afro-brasileira. Ele destaca que a fé afro é resistência em movimento e que essa espiritualidade transforma dor em canto e exclusão em comunidade.
A obra também estabelece diálogo com temas atuais como o racismo estrutural e a valorização da cultura negra. “O filme é uma ponte entre passado e presente, denunciando o apagamento histórico, mas também celebrando o orgulho e o renascimento da consciência negra”, afirma.
Durante as gravações, momentos marcantes emocionaram a equipe. Um deles foi quando Maria Inês relembrou as primeiras missas e falou das lutas enfrentadas. “Todos ficaram em silêncio e sentiram o peso da história e a urgência de preservá-la”, relembra.
O envolvimento da comunidade tem sido total, com músicos, religiosos, turismólogos e lideranças locais participando diretamente do projeto. “É um filme feito com e para o povo preto ituano”, resume Cavalheiro.
A previsão é que as primeiras exibições ocorram em 2026, em espaços culturais e religiosos da região metropolitana de Sorocaba, com entrada gratuita e rodas de conversa após as sessões. “Missa Afro de Itu representa o reencontro com nossas raízes e a voz ancestral ecoando nas ruas de uma cidade que, finalmente, começa a ouvir”, ressalta. “Itu pode e deve ser reconhecida não apenas como o berço da República, mas também como o berço da resistência negra paulista”, completa.
As gravações seguem em ritmo intenso, e o making of já revela a força das histórias que em breve ganharão a tela. Quem quiser acompanhar os bastidores pode seguir as redes sociais da produtora @cavalheiro_producoes, onde serão publicados registros exclusivos, entrevistas e curiosidades sobre a produção. O documentário pretende emocionar o público e reforçar a importância da preservação da memória e da valorização da cultura afro-brasileira.




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