Especial reúne histórias reais que mostram que ser pai vai muito além da genética; é sobre presença, entrega e amor diário
Enquanto o comércio aquece para o Dia dos Pais, dentro dos lares brasileiros um outro tipo de movimento ganha espaço: o reconhecimento da importância do afeto, do tempo compartilhado e do envolvimento emocional como pilares da verdadeira paternidade.
A psicóloga clínica Nielly Rodrigues Cardoso, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e Psicologia Educacional, reforça que a figura paterna exerce um papel essencial no desenvolvimento psicológico, emocional e social da criança.
“Estudos e a prática clínica mostram que crianças com pais presentes, afetuosos e comprometidos tendem a desenvolver melhor autoestima, autonomia e estabilidade afetiva”, explica.
Ela aponta ainda que a ausência paterna não é necessariamente física. “Muitos pais estão dentro de casa, mas emocionalmente distantes. O que forma vínculo é a interação verdadeira. Paternidade não é título, é construção.”
Para além dos estereótipos, essa matéria especial traz relatos que mostram a pluralidade — e a profundidade — da experiência de ser pai.
Ricardo Narbona: fé, rotina e nove corações pulsando dentro de casa

A casa da família Narbona é cheia: de crianças, de barulho, de vida. Ricardo Henrique Candido Narbona, comerciante de 37 anos, é pai de oito filhos e aguarda com a esposa, Maria Eliane, o nascimento do nono. Para ele, cada criança é uma missão divina. A decisão de ter uma família numerosa foi tomada em comum acordo com a esposa ainda no namoro, sustentada por um conceito que guia a vida do casal: a “abertura à vida”.
“A fé nos levou a essa consciência. Gerar filhos é gerar para o Céu. Cada filho que chega tem um jeito único, irrepetível. Isso me emociona profundamente.”
A rotina, como ele mesmo descreve, é imprevisível. Mas há rituais que fazem questão de manter: refeições em família, momentos de oração e brincadeiras com todos. A hora do jantar é sagrada. “Sentamos todos à mesa, oramos, conversamos. Mesmo quando o dia é caótico, é ali que a gente se reencontra.”
Apesar das alegrias, os desafios são constantes. “Educar é esculpir a alma do ser humano. Não é fácil. É cansativo, exige paciência e coerência. Mas é também a maior das alegrias: ver o amor puro florescendo diante dos nossos olhos.”
Ao refletir sobre a paternidade, Ricardo afirma que seus filhos o ensinaram sobre o essencial: “A alegria de cada um, mesmo em meio às dificuldades, é um lembrete de que a felicidade está nas coisas simples. A paternidade me tirou da lógica do controle. Me ensinou a confiar.”
Rafael Melo: entre perdas e esperas, o presente chegou

Rafael Alexandre de Melo, analista de qualidade de 41 anos, é pai de Miguel e Gabriel. Miguel veio por via biológica; Gabriel, por adoção. No intervalo entre os dois, Rafael e a esposa enfrentaram a dor de uma perda gestacional e o impacto do diagnóstico precoce de menopausa, que encerrou a possibilidade de novas gestações.
“A adoção já fazia parte dos nossos planos desde o namoro. Quando soubemos que não poderíamos ter mais filhos, decidimos seguir com o processo. A espera durou sete anos.”
No meio do processo, Viviane, sua esposa, enfrentou um câncer e precisou passar por tratamento. Gabriel nasceu nove meses após a alta médica dela. “Foi como um renascimento. Um presente. Era para ser ele. A sensação de segurá-lo pela primeira vez, tão pequeno, com um mês e vinte dias, é impossível de descrever. Era como segurar o tempo em forma de vida.”
Rafael reconhece que os desafios da paternidade são grandes, mas sente que está mais preparado do que na primeira vez. “Com o Miguel, aprendi a ser pai. Com o Gabriel, venho aprendendo a ser um pai mais calmo, mais seguro. Os dois são as melhores partes de mim.”
Ele também destaca a importância de desmistificar a adoção. “Não é caridade. É amor. É família. E é preciso que a sociedade compreenda isso. Não existe diferença entre um filho biológico e um adotivo. O amor é o mesmo e talvez até mais consciente.”
Felipe Moreira: um cromossomo a mais de amor

A chegada do pequeno Samuel, hoje com 9 meses, transformou a vida do jornalista, professor e músico Felipe Boni Alves Moreira, de 40 anos. Após anos sonhando em ser pai, ele recebeu com alegria a notícia da gravidez. Mas foi apenas após o nascimento que ele e a esposa souberam: Samuel tem síndrome de Down.
“Na hora, meu coração se encheu de perguntas. Mas logo vieram as respostas: Deus estava nos confiando uma missão maior. Não houve espaço para o medo. Só para o amor.”
Felipe descreve a paternidade como um mergulho no que há de mais puro. “Cada descoberta do Samuel é uma celebração. Cada sorriso, um aprendizado. Ele nos ensina sobre generosidade, entrega e o real sentido da vida.”
Ele também fala sobre como tem se preparado para enfrentar possíveis olhares e julgamentos. “Se vierem preconceitos, vamos responder com amor. Samuel é nossa alegria. E crianças com síndrome de Down são perfeitamente capazes de viver em sociedade. Basta acolhimento, estímulo e respeito.”
José Domingos: quando o vínculo nasce entre fios e monitores

Empresário, José Domingos Rosa Zagui, 49 anos, não planejava a adoção até conhecer sua esposa, que já alimentava esse desejo. Ele topou. Pouco tempo depois, conheceu José, seu filho, em uma instituição municipal. O bebê, ainda pequeno, chorava muito.
“O primeiro encontro foi mais simples do que imaginei. Eu sou prático, não crio expectativas. Mas tudo mudou quando ele precisou passar por uma cirurgia no coração. Foram quase três meses de internação. Nos conhecemos de verdade dentro de uma UTI.”
José Domingos descreve com emoção o momento em que o filho estendeu o braço e segurou seu dedo. “Ali, uma lágrima escorreu do olho dele. Ali eu soube: é meu filho.”
Ele destaca que, embora a adoção muitas vezes seja romantizada, ela é sobre entrega. “Pais adotivos não são heróis. São pais. Como qualquer outro. Meu filho me ensinou a valorizar a vida, a celebrar cada conquista. Ele era um bebê desacreditado. Hoje, é destaque no desenvolvimento cognitivo.”
Reinaldo Rangel: paternidade solo e o renascimento diário

Reinaldo Pessôa Rangel, 54 anos, é pai solo há oito anos. Corretor de imóveis, teve que reorganizar toda a sua vida após assumir integralmente os cuidados com o filho. Entre jornada dupla e noites mal dormidas, descobriu um amor que transformou sua forma de estar no mundo.
“Você se vê diante de uma realidade nova, que exige força e sensibilidade ao mesmo tempo. Aprendi a fazer comida, a cuidar da febre, a responder bilhete de escola. Aprendi a ouvir mais. A estar, de verdade.”
Ele conta que, apesar do cansaço, cada abraço do filho renova sua energia. “Quando ele me olha com confiança, sei que estou no caminho certo.”
Sobre os julgamentos, Reinaldo é direto: “Ainda existe estranhamento quando descobrem que sou eu quem cuida de tudo. Mas já não me importo. O que importa é que ele cresça sabendo que pode contar comigo.”
Felipe Vieira: trigêmeas, fé e uma casa em ebulição

Com 39 anos, o personal trainer Felipe Pi Vieira achava que já tinha encerrado o ciclo da paternidade. Pai de dois filhos adolescentes, foi surpreendido com uma nova gravidez. Primeiro, soube que seriam gêmeos. Depois, veio a revelação: trigêmeos.
“Foi uma mistura de susto, riso e lágrimas. Uma explosão de sentimentos. Não esperávamos, mas acolhemos com fé.”
As trigêmeas — Ana, Eva e Ivi — nasceram prematuras. As duas primeiras passaram cerca de 22 dias na UTI. Ivi ficou 42 dias internada. “Cada alta foi uma vitória. Ver as irmãs irem buscar a Ivi no hospital foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida.”
A rotina hoje é puxada. Revezamento de turnos, apoio da família, refeições quando possível, noites com poucas horas de sono. Mas Felipe garante: não trocaria por nada.
“A paternidade me ensinou o que é o amor incondicional. Você se torna mais forte, mais responsável. E percebe que, no fundo, são eles que nos ensinam a viver.”
Christian Hilário: um pai prestes a nascer

Aos 46 anos, o ator Christian Hilário vive uma das maiores estreias de sua vida; não nos palcos, mas no palco da paternidade. Ao lado da companheira, Fernanda Mariáh, que está com 37 semanas de gestação, ele aguarda a chegada da filha Catarina Mariáh Hilário com o coração cheio de expectativa, emoção e, como ele mesmo define, “muito fogo no zóio”.
“Eu já sabia que a Fer estava grávida. Ela estava atrasada e isso não é comum. Mas, mesmo assim, respeitei o tempo dela, não pressionei. Quando finalmente fizemos o primeiro teste, foi um susto bom. Saímos pra comprar outro, só pra ter certeza. E aí veio mais um positivo. Aí sim, a ficha caiu. Era real. Era um sonho sendo realizado.”
Desde então, Christian mergulhou de cabeça na preparação. Participou de cursos com a doula Marília Massuia, começou a perguntar para amigos e colegas como é o dia a dia com um bebê, como funciona a amamentação, as madrugadas, a troca de fraldas. “Eu tenho feito muitas perguntas. Fico ouvindo as experiências de quem já viveu isso. Claro que cada um tem sua história, mas tudo ajuda. Eu tô muito ansioso para conhecer a Catarina, viver o dia a dia com ela. A gente esperou tanto por esse momento e agora está quase aí.”
Entre os momentos mais marcantes dessa jornada, ele relembra o primeiro ultrassom como um divisor de águas. “Ouvir o coraçãozinho batendo foi muito emocionante. Ver que estava tudo bem. Descobri que era a Catarina. Apesar de que, sinceramente, eu sempre soube que era ela. Mas ver ali na tela, com essa tecnologia de hoje, com ultrassom 8D é surreal. A emoção vem forte.”
Com a chegada da filha, Christian sabe que a vida vai mudar e está pronto para isso. Ele encara a transformação com naturalidade e carinho. “Vai ser uma mudança positiva. Claro que a rotina vai mudar, especialmente no começo. Mas acredito que a Catarina vem pra somar, pra nos ensinar. Uma criança vem pra isso, pra nos ensinar o valor da vida, da família. Ela já está mudando tudo, mesmo antes de nascer.”
E, como uma espécie de mantra, ele resume o que sente neste momento: presença. “Catarina viva. Presente. Porque o passado não volta e o futuro talvez nem chegue. Fogo no zóio pra viver tudo isso com intensidade.”
Paternidade: presença que estrutura
A psicóloga Nielly Rodrigues Cardoso conclui: “O pai presente é aquele que cuida, que se envolve, que olha nos olhos. Ser pai é se responsabilizar por uma vida. Não existe formato único: o que importa é o vínculo, o afeto, o compromisso.”
Neste Dia dos Pais, mais do que presentes materiais, muitos filhos desejam – e precisam – de um gesto simples e transformador: a presença.




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